quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Comemoração de aniversário: 8 anos do Boca de Rua

O jornal Boca de Rua há 8 anos mostra uma realidade que não aparece na grande mídia. Ao revelar esta outra verdade, contribui para a formação de pensamento crítico de todos os cidadãos.
Neste sábado, os integrantes do Boca de Rua reunir-se-ão para comemorar os 8 anos de existência do projeto e conversar com seus leitores. A partir das 14h, na Redenção, estarão expostas fotografias realizadas pelos moradores de rua em uma oficina realizada neste ano. Os jornais novos e antigos poderão ser comprados.
Há 3 anos, depois de muita persistência, consegui entrar para a Rede Boca. Logo que conheci o jornal, tive vontade de participar, mas não foi fácil encontrar e convencer a Clarinha. Os primeiros momentos no projeto foram de um estranhamento enorme e exigiram de mim um grande esforço para que conseguisse me adaptar - embora, por vezes, pense que ainda não consegui.
Por mais que o projeto enfrente muitas dificuldades e que muitas vezes as reuniões sejam cansativas e tumultuadas, eu posso afirmar que fazer parte deste jornal é um motivo de orgulho. Certamente, desde setembro de 2005 a minha vida e o meu olhar sobre ela foram profundamente modificados - e continuam sendo, a cada segunda-feira. Eu só tenho a agradecer aos integrantes do jornal, que me aceitam (mesmo com a minha braveza), me ensinam, me fazem sorrir e chorar. E aos queridos que compuseram a Rede Boca nestes anos, Manoel, Clarinha, Nanda e Rosina, que compartilham as alegrias e as dores deste trabalho.
Apareçam para falar com os guris (é provável que eles até cantem).
(O Bocão, que aparece sentado na foto do convite, é o único integrante que participa desde a fundação do jornal. Quem segura o cartaz é a querida Chineza. Certamente ela ficaria lisonjeada de estar ali.)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Entrevista coletiva

Na próxima quinta-feira, 4 de setembro, às 14h30min, no Gapa/RS*, acontecerá uma entrevista coletiva com alguns integrantes do jornal Boca de Rua. A entrevista é uma iniciativa do Coletivo Catarse de comunicação, em parceria com o Boca, e será aberta a todos os que quiserem participar.
O objetivo é que a conversa gere textos semelhantes que serão publicados em blogs diversos, ao mesmo tempo. É uma forma de conceder mais espaço a um olhar sobre a realidade que não é publicizado pelos meios de comunicação, permitindo que os moradores de rua que integram o jornal possam responder a questionamentos de quem não vivencia a mesma situação. E uma oportunidade para que, além de entrevistadores, eles sejam também entrevistados, valorizando o que eles têm a contar.
*O Gapa/RS fica na rua Luiz Afonso, 234 - Cidade Baixa.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Despedida da Chineza


Este blog parece um obituário, mas ela merece a homenagem. Merece que todos saibam que existiu e que fez diferença em muitas vidas. Na minha, fez uma enorme diferença.


No dia 20 de agosto de 2008, pela manhã, faleceu Marko Kahn-Su Griá, a Chineza, integrante do Boca de Rua há muitos anos.


Nascida em uma reserva indígena kaingang, perdeu os pais e foi adotada pela professora da reserva, branca. A família da professora se mudou, de modo que a Chineza perdeu o contato com a reserva muito jovem. Algum dia, veio com uma tia fazer compras em Porto Alegre e se apaixonou pela cidade. Resolveu voltar em breve, com a garantia de emprego feita por um amigo. Quando chegou, não havia mais o emprego e ela ficou na rua. E nunca mais saiu. Foram quase 20 anos vivendo nas praças, parques e ruas da cidade.


A Chineza era muito especial. Era índio kaingag, era homossexual, foi travesti, era moradora de rua, era portadora do vírus HIV, era alcóolatra, carregava consigo inúmeros estigmas. Era inteligentíssima, era meiga, era esperta, era esforçada. Falava muito bem, gostava de ir ao cinema, de ler jornal. Na minha opinião, era um capítulo a parte na história do Boca de Rua. Extremamente orgulhosa do seu trabalho no jornal, sempre se podia contar com ela para ir às entrevistas, para escrever textos em casa/na rua, para participar dos eventos.


A Chineza foi organizadora de uma exibição semanal de vídeos na Casa de Convivência I - por isso, agora existe lá uma sala com o seu nome. Gostava de estar na rua com seus amigos, mas tinha consciência do preconceito e de como precisavam lutar para mudar a imagem do morador de rua, para se tornarem seres visíveis e respeitados.


Ela morreu em conseqüência da tuberculose e da pneumonia. Quando perdeu sua melhor amiga, a Barbie, parece que desistiu. Não quis mais se tratar. Foi encaminhada ao hospital, mas avisou que preferia morrer nas ruas, como as outras. Entretanto, no último momento foi para o hospital, e lá que morreu. A Funasa responsabilizou-se pelo enterro e levou-a de volta para a reserva, com o consentimento do cacique.


Só agora consegui escrever sobre ela. O terceiro afeto que perco em pouquíssimo tempo. Fica o pavor de não saber o que fazer para evitar que outros mais morram. Fica o vazio que essa querida amiga deixa em mim.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Posso tirar os óculos?

Há muitas coisas nessa cidade que me machucam.
A Cidade Baixa tem se tornado um lugar que me apavora, pois sei que sempre voltarei triste de lá. Posso parecer uma criança boba, mas o número de pessoas vendendo amendoins, incensos, meias, balas, santinhos ou simplesmente pedindo dinheiro me desperta um sentimento de impotência. Podem me dizer que, se eles estão ali, é porque conseguem vender, porque juntam algum dinheiro que lhes permita sobreviver (ao menos mais um pouco). Entretanto, eu não me conformo.
Na semana passada, encontrei um menino chamado Josias vendendo balas de goma. Ele deveria ter uns 5 anos e tinha um sorriso lindo, com covinhas imensas nas bochechas. Só tive vontade de pegar no colo. Nunca vou me acostumar com o trabalho de uma criancinha, que deveria estar brincando ou dormindo - já que eram 10 horas da noite. Nunca vou poder ser indiferente a isso.
Hoje eu saí sem óculos - só me dei conta quando estava no elevador, já que dentro de casa eu não preciso muito deles. Só andei uma quadra. É uma sensação agoniante: só chego à esquina porque conheço o caminho de olhos fechados, não reconheço ninguém, não encontro o que procuro no mercadinho. As cores e informações visuais me deixam tonta.
Já enxergo pouco.
Algumas coisas podiam ser assim simples: queria poder tirar meus óculos e não enxergar os Josias que me entristecem. Até posso, mas eles vão continuar ali - de modo que não adianta absolutamente nada e eu vou continuar chorando por isso.
Eis um texto egoísta e bobo, mas que precisava ser escrito.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Clube do Boquinha


Quem conhece o jornal Boca de Rua, conhece também o Boquinha, suplemento do jornal feito por 17 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Para participar do Boquinha, a criança ou jovem não pode estar na rua e precisa estudar. Os encontros são dedicados a brincadeiras, passeios, desenhos e outras atividades lúdicas, além da construção de alguns textos coletivos.

Diferentemente dos integrantes adultos do projeto, as crianças não podem vender o jornal. Para evitar que isto aconteça e para, de alguma maneira, dar a elas um retorno de sua dedicação e participação, cada família ou instituição responsável pelas crianças recebe uma bolsa em dinheiro. Entretanto, a Alice, ong responsável pelo projeto, têm encontrado dificuldades para conseguir a verba necessária.

Surgiu, assim, a idéia do Clube do Boquinha, um grupo de pessoas interessadas em contribuir com este projeto. Hoje, no Zelig (Sarmento Leite, 1086), às 19h, haverá um encontro para a apresentação do Clube, com o intuito de conquistar novos colaboradores. Todas as presenças e todas as contribuições são sempre bem-vindas.







segunda-feira, 21 de julho de 2008

Em julho

1. No início de julho, a Fasc decidiu incluir a população de rua no "cadastro único", o cadastro das pessoas que recebem até meio salário mínimo por mês e que podem ser beneficiadas por programas do governo federal (como o Bolsa Família e o Pro-Jovem). Para isso, finalmente deixou de exigir comprovante de residência como documento necessário. Entretanto, continuam sendo cobrados outros documentos que a maioria dessas pessoas não carrega consigo, como carteira de identidade, CPF ou título de eleitor. Assim sendo, muitos moradores de rua permanecerão excluídos de tais programas. Por vezes, parece que quem trabalha nos órgãos destinados a atender quem está na rua nunca conversou ou conviveu com eles.
2. Na mesma semana, em frente ao HPS, um morador de rua tinha uma convulsão. Mais de dez pessoas estavam paradas ao redor, tentando ajudá-lo, segurando-o, mas ninguém queria carregá-lo por medo de machucá-lo. Como estavam na frente do hospital, chamaram os médicos. Ninguém apareceu. Quando passei por ali, três pessoas já haviam entrado no hospital para pedir ajuda e ninguém fez nada. Depois de muita confusão e de várias pessoas gritando no saguão, indignadas com o descaso, os passantes resolveram levá-lo para dentro do hospital e tiveram que entrar com ele na emergência. Os médicos e enfermeiros da SAMU, ao serem xingados, responderam que não tinham bola de cristal e que ninguém os havia chamado.
Foi dos momentos mais indignantes por mim vivenciados. Incrível a falta de preocupação com um ser humano por parte de pessoas que deveriam zelar pelas vidas dos outros. O único consolo foi saber que ainda existe muita gente que se importa e que enxerga os moradores de rua.
Freqüentemente os moradores de rua são destratados pelos serviços de saúde. O Marcelo, integrante do Boca que faleceu recentemente, foi até o hospital um dia antes de sua morte e o mandaram embora.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Despedida do Marcelo

O inverno torna a vida na rua muito mais difícil. Hoje perdi mais um amigo integrante do Boca de Rua. Marcelo Souza Guedes morreu dormindo na rua, provavelmente por causa do frio. É apenas junho e só nesse inverno faleceram duas pessoas que me eram queridas.
Fico imaginando o quão duro deve ser dormir ao relento em dias como ontem e hoje. Eu passo frio dentro da minha casa, onde tenho estufas, cobertas e muitas roupas. Vários deles dormem direto nas calçadas, sem nada para se cobrir.
Porto Alegre e outras cidades tão frias deveriam ter projetos efetivos para que as pessoas não precisem dormir nas ruas durante o inverno. As vagas são ampliadas, mas continuam insuficientes. E as regras continuam rígidas como sempre, o que impede o acesso.
Será que nem o frio torna os moradores de rua menos invisíveis?