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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Entrevista coletiva

Na próxima quinta-feira, 4 de setembro, às 14h30min, no Gapa/RS*, acontecerá uma entrevista coletiva com alguns integrantes do jornal Boca de Rua. A entrevista é uma iniciativa do Coletivo Catarse de comunicação, em parceria com o Boca, e será aberta a todos os que quiserem participar.
O objetivo é que a conversa gere textos semelhantes que serão publicados em blogs diversos, ao mesmo tempo. É uma forma de conceder mais espaço a um olhar sobre a realidade que não é publicizado pelos meios de comunicação, permitindo que os moradores de rua que integram o jornal possam responder a questionamentos de quem não vivencia a mesma situação. E uma oportunidade para que, além de entrevistadores, eles sejam também entrevistados, valorizando o que eles têm a contar.
*O Gapa/RS fica na rua Luiz Afonso, 234 - Cidade Baixa.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Despedida da Chineza


Este blog parece um obituário, mas ela merece a homenagem. Merece que todos saibam que existiu e que fez diferença em muitas vidas. Na minha, fez uma enorme diferença.


No dia 20 de agosto de 2008, pela manhã, faleceu Marko Kahn-Su Griá, a Chineza, integrante do Boca de Rua há muitos anos.


Nascida em uma reserva indígena kaingang, perdeu os pais e foi adotada pela professora da reserva, branca. A família da professora se mudou, de modo que a Chineza perdeu o contato com a reserva muito jovem. Algum dia, veio com uma tia fazer compras em Porto Alegre e se apaixonou pela cidade. Resolveu voltar em breve, com a garantia de emprego feita por um amigo. Quando chegou, não havia mais o emprego e ela ficou na rua. E nunca mais saiu. Foram quase 20 anos vivendo nas praças, parques e ruas da cidade.


A Chineza era muito especial. Era índio kaingag, era homossexual, foi travesti, era moradora de rua, era portadora do vírus HIV, era alcóolatra, carregava consigo inúmeros estigmas. Era inteligentíssima, era meiga, era esperta, era esforçada. Falava muito bem, gostava de ir ao cinema, de ler jornal. Na minha opinião, era um capítulo a parte na história do Boca de Rua. Extremamente orgulhosa do seu trabalho no jornal, sempre se podia contar com ela para ir às entrevistas, para escrever textos em casa/na rua, para participar dos eventos.


A Chineza foi organizadora de uma exibição semanal de vídeos na Casa de Convivência I - por isso, agora existe lá uma sala com o seu nome. Gostava de estar na rua com seus amigos, mas tinha consciência do preconceito e de como precisavam lutar para mudar a imagem do morador de rua, para se tornarem seres visíveis e respeitados.


Ela morreu em conseqüência da tuberculose e da pneumonia. Quando perdeu sua melhor amiga, a Barbie, parece que desistiu. Não quis mais se tratar. Foi encaminhada ao hospital, mas avisou que preferia morrer nas ruas, como as outras. Entretanto, no último momento foi para o hospital, e lá que morreu. A Funasa responsabilizou-se pelo enterro e levou-a de volta para a reserva, com o consentimento do cacique.


Só agora consegui escrever sobre ela. O terceiro afeto que perco em pouquíssimo tempo. Fica o pavor de não saber o que fazer para evitar que outros mais morram. Fica o vazio que essa querida amiga deixa em mim.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Em julho

1. No início de julho, a Fasc decidiu incluir a população de rua no "cadastro único", o cadastro das pessoas que recebem até meio salário mínimo por mês e que podem ser beneficiadas por programas do governo federal (como o Bolsa Família e o Pro-Jovem). Para isso, finalmente deixou de exigir comprovante de residência como documento necessário. Entretanto, continuam sendo cobrados outros documentos que a maioria dessas pessoas não carrega consigo, como carteira de identidade, CPF ou título de eleitor. Assim sendo, muitos moradores de rua permanecerão excluídos de tais programas. Por vezes, parece que quem trabalha nos órgãos destinados a atender quem está na rua nunca conversou ou conviveu com eles.
2. Na mesma semana, em frente ao HPS, um morador de rua tinha uma convulsão. Mais de dez pessoas estavam paradas ao redor, tentando ajudá-lo, segurando-o, mas ninguém queria carregá-lo por medo de machucá-lo. Como estavam na frente do hospital, chamaram os médicos. Ninguém apareceu. Quando passei por ali, três pessoas já haviam entrado no hospital para pedir ajuda e ninguém fez nada. Depois de muita confusão e de várias pessoas gritando no saguão, indignadas com o descaso, os passantes resolveram levá-lo para dentro do hospital e tiveram que entrar com ele na emergência. Os médicos e enfermeiros da SAMU, ao serem xingados, responderam que não tinham bola de cristal e que ninguém os havia chamado.
Foi dos momentos mais indignantes por mim vivenciados. Incrível a falta de preocupação com um ser humano por parte de pessoas que deveriam zelar pelas vidas dos outros. O único consolo foi saber que ainda existe muita gente que se importa e que enxerga os moradores de rua.
Freqüentemente os moradores de rua são destratados pelos serviços de saúde. O Marcelo, integrante do Boca que faleceu recentemente, foi até o hospital um dia antes de sua morte e o mandaram embora.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Uma puta história

Na última segunda-feira, 24 de março, foi lançada a terceira edição da revista Norte - cultura no sul do mundo (e eu já gostei do nome), em que gaúchos escrevem sobre literatura, cinema e artes plásticas, entre outras coisas. É uma revista magrinha, com um projeto gráfico bonito e matérias interessantes, e custa apenas R$ 3,50.
Dentre as matérias, a revista publicou o primeiro capítulo de um folhetim que está sendo escrito por seis prostitutas de Porto Alegre vinculadas ao Núcleo de Estudos da Prostituição (NEP). "Mariposa - uma puta história" é uma narrativa ficcional sobre a vida de Fran, personagem inventada misturando características da personalidade e pedaços da vida de cada uma das autoras. Como elas mesmo dizem na introdução, quem ler vai ficar "sabendo que não é verdade que prostituta não vale nada e não tem vergonha de nada".
A revista Norte já ganhou meu respeito pela iniciativa de abrir espaço para que as prostitutas falem, através da ficção, sobre como elas vivem, sobre os problemas e os aspectos positivos da sua profissão, sobre a discriminação de que são alvo. São elas mesmo mostrando como enxergam o mundo, e não alguém contando a história por elas, fazendo reportagens em que elas são apenas as fontes. É um projeto com o objetivo de fazer que vozes que nunca são ouvidas pelos meios de comunicação encontrem um espaço de manifestação. É uma tentativa de modificar alguns olhares preconceituosos, mostrando que a palavra prostituta não resume tudo o que uma pessoa é. Em Porto Alegre, são cerca de 10 mil mulheres que, além de trabalharem como prostitutas, têm famílias, sonhos, histórias sofridas ou nem tanto, assim como todo mundo.
O folhetim surgiu em oficinas de escrita coordenadas pela jornalista Rosina Duarte (minha querida chefe/colega) e pela psicóloga Maíra Brum Rieck, que se perguntavam: "o que aconteceria se essas pessoas fossem ouvidas, não na condição de marginais, de quem está do lado de fora, mas a partir do seu próprio ponto de vista? O que aconteceria se deslocássemos, ainda que levemente, o ângulo da nossa visão? O que aconteceria se escutássemos o que elas têm a dizer? "
São as mesmas questões que motivaram o surgimento do Boca de Rua e que, acredito eu, deveriam inspirar todos os veículos de comunicação comunitária.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A pergunta do Bocão

Na última segunda-feira, o Boca de Rua entrevistou Juliano Fripp, representante dos camelôs que trabalham na Rua da Praia e que fazem parte dos 800 ambulantes que serão transferidos para o Centro Popular de Compras (CPC), o camelódromo do terminal Rui Barbosa, a partir de maio. Eles esperam que a mudança de espaço ocasione a diminuição da violência policial e dos abusos da SMIC, já que só poderá alugar a banca quem tiver o bendito alvará - nada de vendedores de CD ou de DVD, portanto.

O camelódromo vai abrigar apenas um terço dos ambulantes do centro de Porto Alegre, que são cerca de 2.500. Como ainda não foram estabelecidos quais os critérios que definirão quem entra ou não no novo prédio (além do alvará), é provável que o assunto ainda gere alguma confusão - certamente noticiada pelo Correio do Povo, que desde 2007 abraçou a campanha "os camelôs assustam a população do centro". A confusão promete ser ainda maior pois, conforme afirmou o Guilherme, que convive sempre com os kaingang e os guarani, os índios que vendem artesanato também deverão sair das ruas para se estabelecer no CPC.

Embora a entrevista tenha me informado sobre questões até então desconhecidas, o maior momento dela, ao meu ver, foi quando o Bocão, integrante mais antigo do jornal, fez a seguinte pergunta:
- Se acaso eu quiser comprar alguma coisa nos camelôs, quero subir no prédio que fizeram novo e não quero ir nos camelôs da rua, vai precisar de alguma coisa pra poder entrar no prédio? Algum crachá, alguma identificação?


Eu, que quase nunca preciso mostrar documento para entrar em algum lugar, me pergunto quantas vezes ele já deve ter sido barrado em locais como mercados, lojinhas e restaurantes. E busco na memória quantas histórias eu já escutei de estabelecimentos comerciais que não os deixaram entrar, mesmo quando eles mostravam o dinheiro. Os camelôs também sofrem na mão da polícia, também são perseguidos pelos órgãos da prefeitura e também são mostrados nos jornais como a "escória da sociedade". A pergunta do Bocão me fez pensar em tudo o que ele já deve ter passado para imaginar que nem mesmo os camelôs, que compartilham alguns problemas com os moradores de rua, aceitariam que eles entrassem em um prédio comercial.

Eis a resposta do Juliano:
- Se houver qualquer tipo de negociação ou atitude desse tipo, que alguém peça um crachá ou uma identificação pra pessoa poder entrar dentro do camelódromo, essa pessoa tem que ser presa, porque aquele espaço é público.

Deixaste o meu dia um pouco mais leve, Juliano.

sábado, 15 de dezembro de 2007